18.4.12
Mirtes
17.4.12
Solicitação de inimizade.
24.11.11
Bar do Pessoa

5.11.11
Esqueci
12.10.11
Minha criança
4.10.11
A vida
12.7.11
Vidas e apostas
Ninguém poderia, hoje, imaginar que no lugar daquele conjunto, imenso, de edifícios com playground, salão de festas, cinema, academia, piscina e bar havia uma praça, uma imensa praça. Na qual, meus pais me levavam para passar um domingo inteiro de sol. Não digo que era uma praça com parquinhos cheios de brinquedos e chafariz, não, a praça era melhor que isso, pois nela havia árvores com frutas e apenas um balanço, que era dividido por todas as crianças. Os pombos não eram pragas, eram apenas mais uma diversão. Tinha o Seu Arnaldo, um aposentado, que levava milho para todas as crianças. Nós fazíamos fila com as duas mãos formando uma concha e o Seu Arnaldo entornava um punhado de milho. Hoje, vejo um pombo ou outro por aqui.
Eu tinha muitos amigos e, quando digo muitos, são acima de trinta. Jonas era o meu melhor amigo, ele era grande, pra todos os lados, e me defendia de qualquer enrascada que me metia. Ele possuía mais carne que os outros meninos e nós o chamávamos de Gordinho. Ele não se sentia ofendido com o fato, além disso, ele até se apresentava como Gordinho.
Lembro-me também como era bom juntar algumas moedas e comprar uma garrafa de refrigerante, aos sábados, antes do almoço. Isso, eu fazia escondido do Gordinho, pois ele bebia, sem respirar, uma garrafa de um litro. Minha mãe brigava porque depois, eu não batia o prato inteiro de comida, mas me sentia tão adulto quando entrava no Bar do Almir e, nas pontas dos pés, pedia uma garrafa, bem gelada. Ainda compro refrigerante no bar, com a diferença que agora as garrafas são de plástico e as crianças frequentam o bar para beber cerveja. Penso que, pra essas crianças, o bairro também deve ser bom, afinal, a associação de moradores corre atrás, junto à prefeitura, para instalar, até, internet gratuita a todos.
A igreja continua no mesmo local, ela, por mão divida, creio eu, ainda continua intacta, o estado a tombou como patrimônio histórico. Posso dizer, ironicamente, que os frequentadores da mesma, também foram tombados, pois são os mesmos de antigamente. Acho que a internet tomou o lugar de Deus, por isso muitos comparam o Steve Jobs e Bill Gates a Deuses, não posso ser ignorante e dizer que a igreja é melhor que a internet, não, claro que não, mas posso dizer que o ato de unir a família, ou melhor, unir famílias é bom para a alma, para a vida.
Recordo-me que o Padre Afrânio jogava bola com os meninos e entre uma tropicada ou outra, ele, com o rosto rubro de raiva, gritava o nome de Judas para não exclamar um palavrão sujo. Hoje, a paróquia muda mais de padre que eu, quando criança, mudava a roupa.
Os vizinhos se conheciam. Sabiam que o filho do Américo estava cursando medicina em São Paulo, que a Gerusa, filha da fofoqueira Dona Alice, estava de namoro com um taxista, bem mais velho que ela, que fazia ponto no centro. Copos de açúcar eram constantemente visto nas mãos de pessoas, quase, certamente, era um vizinho reabastecendo o estoque de outro. Hoje, meus vizinhos, sequer me dão bom dia.
O antigo bairro tinha uma costureira, uma benzedeira, o Seu Otávio que aplicava injeções, a Dona Carminela que confeitava bolos e o Seu Jair que furava todas as bolas que caiam no quintal dele.
Posso dizer que até a densidade do ar mudou, que os pássaros cantam pouco, pois, talvez, o tempo deles esteja corrido e que o cheiro da chuva não tem mais cheiro de chuva. Posso até dizer tudo isso, e mais um pouco, mas meu filho achará tudo um saco.

