18.4.12

Mirtes

Dona Mirtes odiava ser chamada de Dona. Apesar de carregar uma penca de netos e bisnetos, Mirtes era apenas Mirtes, não era chamada de bisa ou avó.

- Senhora? – Dizia o vendedor da feira. Mirtes fingia não escutar.

Foi só o primeiro fio de cabelo branco aparecer, como um primeiro gafanhoto em uma plantação, que Mirtes tratou de combatê-lo. Pintava o cabelo desde os joviais trinta anos. Não freqüentava locais onde velhos dominavam e, com vigor, ajudava algumas senhoras, bem mais jovens, a atravessar uma rua.

Dançava em boates, participava de happy hours e fazia a quinta faculdade, mas fugia das festas em família, nas quais os parentes insistiam em reforça que ela era a raiz da árvore genealógica. Os bisnetos mais novos nem a conheciam.

A família preocupou-se quando Mirtes resolveu morar em uma república de estudantes e a namorar um garoto sessenta anos mais novo. O menino, moleque, se dizia apaixonado e, o pior, transparecia realmente isso.

- Mamãe. – Disse o filho mais velho.

- Vê se tenho idade em ser sua mãe, querido. – Rebatia ela.

- Mãe...

- Outra dose de Big Apple, por favor. – Pedia ela ao garçom de um lugar badalado qualquer.

Ficou sério. Reuniram a família toda, era final de ano e ela não poderia escapar. O Natal era única tradição que ela se deixava levar. Filhos, netos e bisnetos a questionaram, pressionaram e sentenciaram.

- Quando a senhora, Dona Mirtes, se portará com alguém de sua idade.

- Hoje. – Disse ela, antes de dar o último suspiro em vida.

17.4.12

Solicitação de inimizade.

Depois de anos desaparecida, ela o solicitou como amigo num site de relacionamentos. Quase clicou confirmando e, quase, clicou não. Ficou no quase e nada fez. Desligou o computador, coou um café e, na sacada do apartamento, acendeu um cigarro. Um maldito vício que ela deixou de herança a ele, além, claro, do café e do álcool, muito álcool. Passou ao lado do bar, paquerou a garrafa de uísque, obstante, foi se deitar. Era tarde.

Não parou na cama, rolou de um lado ao outro, virou o travesseiro diversas vezes, se cobriu e descobriu que não conseguiria dormir. Encheu o copo com uísque, acendeu o cigarro e ligou o computador. Antes de abrir o navegador, recorreu ao passado. Lembrou do primeiro beijo, da primeira vez, dos planos e... Deixou de pensar. Abriu o navegador.

Ela ainda estava lá, aguardando a confirmação, como se nunca tivesse partido, o coração dele. Tinha um sorriso forte na face, muito maquiada e brindava o ar com uma taça de espumante. Feliz, diria qualquer um ao ver aquela imagem.

Olhou mais uma vez a foto, clicou, não tinha acesso a outras informações sobre a moça. Casou? Namora? Onde vive? Filhos? Quantos? Só se via o sorriso e o nome. Kellyn Karolynna, aliás, Karol, ela não gostava do Kellyn. Na quinta dose, parceira do sexto cigarro, ele aceitou e confirmou a amizade. Depois de ver que a moça estava solteira, deu um ágil clique ao álbum. Ele não conhecia aquela Karol.

24.11.11

Bar do Pessoa


Diferentemente dos amigos vagabundos que viviam enfiados apenas na boemia, Pessoa era um sujeito que, além de se embriagar, empreendia em negócios para arrumar dinheiro. Comprava algo e passava à frente com um preço superior, sempre superfaturando um produto que nada valia. Era bom de papo e por isso se dava bem em todos os negócios. Tinha tantas juras de morte que mudava a aparência quase toda semana. Desta vez, ele estava de boina e bigode quando engatou o papo com o amigo.

- Comprar um bar? – Perguntou Elias, incrédulo.

- Sim. – Pessoa respondeu animado.

- Mas qual bar?

- Lá da baixada, perto da bica.

- Ficou louco! Aquele é o ex-bar do Peixoto, ex-barbearia do Arnaldo, ex-locadora do Juarez, ex-salão de beleza da Matilde, ex-boteco do Silvério... Aquele ponto é amaldiçoado. Aquilo não vale nada. Vai pagar quanto?

- Dez mil.

- Pirou!

Pessoa, sem dar ideia ao conselho do amigo, fez o negócio e, um dia depois, inaugurou o comércio. Com o bar lotado e o sorriso tomando conta da cara, o empresário passava de mesa em mesa cumprimentando a clientela. Os mesmos vagabundos de sempre o parabenizavam pelo novo empreendimento, desejando sorte e até a benção divina.

- É a inauguração por isso está lotado. – Dizia Elias indignado à esposa.

- Você está com inveja. – Retrucava a mulher.

- Em breve o único cliente aqui será uma mosca! – Continuava a agourar. - Pousada num ovo cor de rosa.

- Para com isso Elias, isso é feio.

- Pessoa, Pessoa. – Gritou ele. – Não dando papo à mulher. – Fecha a conta pra mim, preciso ir embora.

Pessoa ajeitou a gravata borboleta, abeirou-se na mesa do amigo e sussurrou que conta de amigo dele era por conta da casa.

No carro, a esposa de Elias não perdeu a oportunidade de implicar.

- Reclamou, reclamou, reclamou e nem forçou em pagar a conta.

- Essa merda vai fechar mesmo.

O Bar Pessoa do Bem, batizado pelo dono, lotou, também, no outro dia e Elias pode comprovar. Sozinho, desta vez, sentado numa das banquetas do balcão agourava em silêncio o lugar, dizendo que aquilo não durava mais que uma semana. Pediu a conta ao garçom e o funcionário utilizando as mesmas palavras do patrão não deixou que ele pagasse a conta.

Na semana seguinte o bar estava, novamente, abarrotado de gente e Elias, exagerando na bebida de graça desde a inauguração, continuava a arriscar o prazo de validade do bar, naquele momento, ele deu mais um mês de vida. Saiu como das outras vezes sem pagar uma gota sequer. Na saída, Elias, com o ouvido apurado, escutou um dos clientes falando que aquele bar tinha a melhor cerveja do mundo: - A de graça! – Deu de ouvidos e foi para casa.

Nos dias seguintes, Elias passou a escutar todas as conversas do bar e observou que ninguém pagava a conta. Eram amigos em comum de Pessoa, mas não eram tão amigos como Elias era. No terceiro mês de bar lotado, Elias não aguentou, chamou o amigo no canto e falou sobre o ocorrido.

- Não. – Dizia Pessoa com toda a certeza do mundo. – Meus amigos não pagam a conta aqui.

- Mas você vai falir se continuar desse jeito. Tem amigo seu aparecendo aqui que há anos não o vê.

- Negócios. – Respondeu com um ar esnobe.

- Negócios? Isso vai virar o ex-bar do Pessoa em segundos.

- Então, esse já é o ex-bar do Pessoa.

- Como assim?

– Um empresário veio beber algumas por aqui e me ofereceu um grana no ponto. Acredita? Ficou embasbacado pela quantidade de clientes assíduos. Ou seja, eu, literalmente, investi em vagabundos. Vendi o bar pelo quádruplo que comprei e agradeço a vocês!


5.11.11

Esqueci

Nunca fui de esquecer nada, mas, nessa mudança que fiz, senti que tinha deixado algo para trás. Então, em meu novo lar, coloquei minhas malas no chão e fui tirando peça por peça. As camisas, as duas bermudas, as três calças jeans, o perfume que tanto economizei que até perdeu a validade, meus dois tênis, minha única sandália, meias, cuecas, potes de lentes de contato e os óculos quebrados... Não, eu não havia esquecido nada. Documentos na carteira, celular, carregador... Relaxei.

Os dias passaram e ainda sentia a falta de algo. Pensei, procurei, analisei e nada. Um dia, olhei ao espelho e vi que faltava algo, mas não sabia o que era. Meu bigode estava lá, minha barba falhada e até as espinhas. Relaxei.

No outro dia, eu olhei ao espelho e senti falta, novamente, de algo. Fiquei por horas me analisando. Olhei as olheiras, orelhas, nariz, bochecha, cabelos, as entradas da careca, olhos e, de repente, cadê meu sorriso? Isso, não havia mais sorriso. Então, prontamente, tratei em caçá-lo. Procurei na mala, no guarda-roupa, geladeira, bares, músicas, no Google e nada de achar. Até que me toquei e descobri que eu, que nunca fui de esquecer nada, havia esquecido o meu sorriso. Mas, não me preocupei e, outra vez, relaxei, pois tenho a certeza que ele está em boas mãos.

12.10.11

Minha criança

Lembro-me bem dos meus sonhos de quando era criança. Bem pequenino, eu queria ser um super-herói, mas não consegui ter super poderes e sair voando pela cidade. – Isso não me abalou. – Então, mais crescido, resolvi ser um herói mais humano, um Indiana Jones, talvez, ou um dos meninos dos Goonies, mas não me apareciam potes de tesouro, cobras, crocodilos, piratas ou bandidos. – Isso não me abalou. – A idade veio junto com as responsabilidades, então, resolvi estudar e ser um arquiteto super famoso, então, depois de anos de formado nada além de uma simples subida de cargo em minha empresa. – Isso não me abalou. – Quis, desta vez, escrever, escrever e escrever, eu quero que todos do mundo leiam meus textos, até então, tenho poucos leitores, amigos e família. – Isso não me abala. – Pois, eu, ainda, tenho esperanças em voar...

4.10.11

A vida

Um sujeito abrigado num sobretudo negro e embaixo de um chapéu coco trocava passos sob um sapato, de bico fino, recém lustrado, numa madrugada chuvosa. As luzes dos postes refletiam nas poças da calçada. O homem caminhava como se não houvesse chuva até emparelhar com uma grande ponte. Sem levantar a cabeça, ele respirou fundo e caminhou até cessar os passos, exatamente, no meio da ponte. Aproximou-se do guarda-corpo e olhou para baixo. Notou que o rio estava cheio e revolto e bem diferente da primavera daquele ano, quando, ao lado de Michele, caminhava ao parque que margeava o rio.

Falavam sobre um restaurante onde serviam uma paleta de cordeiro especialíssima. Márcio, que naquele momento vestia o mesmo chapéu, porém trajava uma camiseta Hering branca, esperava à hora exata de beijar Michele. Um vento repentino esvoaçou o cabelo da moça e ela virou-se para o lado de Márcio tentando se proteger da rajada. Ele apoiou a mão numa das faces da moça e ela sorriu. Os músculos de Márcio trabalharam para se aproximarem do corpo de Michele, mas ela se afastou e enfiou a na bolsa pegando um aparelho celular que vibrava incessantemente. - É meu paquerinha. – Disse Michele.

Uma leva mais forte de água chocou-se contra um dos pilares da ponte e Márcio se encontrou em pé em cima do guarda-corpo. Bambeou-se, mas conseguiu o equilíbrio atentando-se para um galho que descia ferozmente a correnteza. Sentiu nas mãos o frio de uma mesa de mármore e o cheiro da fumaça de um cigarro de filtro vermelho. O barulho ensurdecedor de um trovão o jogou de frente ao chefe. – Você é um incompetente. Você está fora da minha empresa. Demitido. – Esbravejava o chefe. Os trovões seguintes pareciam repetir a palavra incompetente. Um raio que caiu exatamente no parque onde caminhava com Michele, sob o sol da primavera, o levou, novamente, à ponte.

Demorou a entender que não sabia mesmo fazer nada direito. Não conseguia manter um romance, o emprego, nem os pais o aceitaram por muito tempo, matou um canário belga que tentou criar, até um peixe beta desapareceu do aquário. – Fugiu? – Pensava ele. – Se eu andasse de bicicleta, elas teriam rodinhas de segurança até hoje. – Erro a mão do macarrão instantâneo e, pior, a minha água nem ferve. Não sei mesmo fazer nada direito. – Ele não parava de pensar. – Tenho que perguntar a funcionária da loja o número da minha roupa. Não tenho amigos, ninguém me adiciona em redes sociais. Um quadrúpede, isso sim. – Ele se auto-humilhava. – E, olha, eu nem sei, ao menos, nadar cachorrinho. – Pensou, ele, antes de pular de volta para a ponte.

12.7.11

Vidas e apostas

Ninguém poderia, hoje, imaginar que no lugar daquele conjunto, imenso, de edifícios com playground, salão de festas, cinema, academia, piscina e bar havia uma praça, uma imensa praça. Na qual, meus pais me levavam para passar um domingo inteiro de sol. Não digo que era uma praça com parquinhos cheios de brinquedos e chafariz, não, a praça era melhor que isso, pois nela havia árvores com frutas e apenas um balanço, que era dividido por todas as crianças. Os pombos não eram pragas, eram apenas mais uma diversão. Tinha o Seu Arnaldo, um aposentado, que levava milho para todas as crianças. Nós fazíamos fila com as duas mãos formando uma concha e o Seu Arnaldo entornava um punhado de milho. Hoje, vejo um pombo ou outro por aqui.


Eu tinha muitos amigos e, quando digo muitos, são acima de trinta. Jonas era o meu melhor amigo, ele era grande, pra todos os lados, e me defendia de qualquer enrascada que me metia. Ele possuía mais carne que os outros meninos e nós o chamávamos de Gordinho. Ele não se sentia ofendido com o fato, além disso, ele até se apresentava como Gordinho.


Lembro-me também como era bom juntar algumas moedas e comprar uma garrafa de refrigerante, aos sábados, antes do almoço. Isso, eu fazia escondido do Gordinho, pois ele bebia, sem respirar, uma garrafa de um litro. Minha mãe brigava porque depois, eu não batia o prato inteiro de comida, mas me sentia tão adulto quando entrava no Bar do Almir e, nas pontas dos pés, pedia uma garrafa, bem gelada. Ainda compro refrigerante no bar, com a diferença que agora as garrafas são de plástico e as crianças frequentam o bar para beber cerveja. Penso que, pra essas crianças, o bairro também deve ser bom, afinal, a associação de moradores corre atrás, junto à prefeitura, para instalar, até, internet gratuita a todos.


A igreja continua no mesmo local, ela, por mão divida, creio eu, ainda continua intacta, o estado a tombou como patrimônio histórico. Posso dizer, ironicamente, que os frequentadores da mesma, também foram tombados, pois são os mesmos de antigamente. Acho que a internet tomou o lugar de Deus, por isso muitos comparam o Steve Jobs e Bill Gates a Deuses, não posso ser ignorante e dizer que a igreja é melhor que a internet, não, claro que não, mas posso dizer que o ato de unir a família, ou melhor, unir famílias é bom para a alma, para a vida.


Recordo-me que o Padre Afrânio jogava bola com os meninos e entre uma tropicada ou outra, ele, com o rosto rubro de raiva, gritava o nome de Judas para não exclamar um palavrão sujo. Hoje, a paróquia muda mais de padre que eu, quando criança, mudava a roupa.


Os vizinhos se conheciam. Sabiam que o filho do Américo estava cursando medicina em São Paulo, que a Gerusa, filha da fofoqueira Dona Alice, estava de namoro com um taxista, bem mais velho que ela, que fazia ponto no centro. Copos de açúcar eram constantemente visto nas mãos de pessoas, quase, certamente, era um vizinho reabastecendo o estoque de outro. Hoje, meus vizinhos, sequer me dão bom dia.


O antigo bairro tinha uma costureira, uma benzedeira, o Seu Otávio que aplicava injeções, a Dona Carminela que confeitava bolos e o Seu Jair que furava todas as bolas que caiam no quintal dele.


Posso dizer que até a densidade do ar mudou, que os pássaros cantam pouco, pois, talvez, o tempo deles esteja corrido e que o cheiro da chuva não tem mais cheiro de chuva. Posso até dizer tudo isso, e mais um pouco, mas meu filho achará tudo um saco.